Diário de um poeta
poemas e textos sobre tudo e nada

Sáb, 28 Ago 2004

Luar

Segue-me um olhar estranho
De que não me consigo esconder
Ilumina o meu caminho
Não tenho para onde correr

Persegue-me há horas
Por onde estou a passar
Mas não há mesmo ninguém
Que o consiga notar

Atrai-me a sua beleza
Eu sei que a forma atraiçoa
Mas como se pode não gostar
Do luar sobre Lisboa

[22:00] | 4 comentário(s)

Qui, 26 Ago 2004

Noites

Noites estranhas
Onde me sinto estranho
E onde em mim me entranho
Onde passo revista à vida
Que duvido se foi vivida

Noites sozinhas
Onde não quero companhia
Onde estou comigo e sentia
Que já estava tudo muito cheio
Para aumentar o meu enleio

Noites longas
Onde vão passando as horas
E vou destruindo as escoras
Da vida que em tempo tive
E à espera do seu fim estive

Noites duras
Onde o futuro parece breu
E não há esperança no céu
De não cair nos mesmos erros
De não me sentir preso em ferros

Noites que acabam com um dia
O raiar da nova aurora
Espero nessa altura já saber
Que vem aí a minha hora

De viver a minha vida
Mesmo que pareça tremida
De responder ao desafio
De viver com o meu brio

26/8/2004

[21:50] | 0 comentário(s)

Grito

Na necessidade de gritar ao mundo que tenho voz
Que a minha vida é minha, que há eu, não apenas nós
Sinto a força de abandonar receitas tristes e passadas
Os dias são meus, enfim, percorro novas estradas...

[17:02] | 18 comentário(s)

Ter, 24 Ago 2004

Espada Quebrada

Foles atiçam o fogo que sob a caldeira arde
Lá dentro, um líquido de fogo incandescente
À sua volta, uma caldeira do duro metal
E um ar que ninguém respira, temente

Chegou ao ponto certo a mistura de metal
O líquido, despeja-se por um caminho letal
E no fim está o ferreiro, aproveitando
A única oportunidade para o metal ir moldando

Passo a passo, num movimento cadenciado e lento
Quase como alma penada penitenciando seu tormento
Vai moldando o brilhante líquido, fervente
Num ritmo que não pára de repente

E, pancada atrás de pancada, se forma uma lâmina
Reluzente, comprida, direita, brilhante, intensa
A mais bela de todas as feitas até ao momento
Aquela a que o maior cavaleiro estará propensa

Passa o tempo, e a água arrefece os últimos momentos
A espada está pronta a ser testada contra os portentos
Um pagem prepara os alvos, um a seguir ao outro
E afasta tudo dali, até ao último potro

Pega na espada, feita para príncipes e reis
E joga-a contra a armadura que todos temeis
A espada estremece em toda a sua beleza
Nesta prova mostra a sua fortaleza

Mas o pagem de algo desconfia
Algo de estranho se passa
Começa a achar que sentia
Que ali havia trapaça

E analisou a lâmina da espada
De fio a pavio forjada
E descobriu um golpe fatal
Que para o seu senhor seria fatal

Manda a espada de volta para a caldeira
Onde se desfaz essa obra primeira
E volta o ferreiro à sequência
De que é feita a sua existência

24/8/2004

[21:16] | 2 comentário(s)

Dom, 22 Ago 2004

Sala de cinema

Sala de presenças não realizadas
Janela para realidades imaginadas
Conversas sobre histórias inventadas
Para onde se dirigem almas penadas

22/8/2004

[21:43] | 0 comentário(s)

Sáb, 21 Ago 2004

Desgraçada

Desgraçada, cá estás tu
A relembrar noites perdidas
Sofrimentos inesquecíveis
Coisas de outras vidas

Desgraçada, porque voltaste
Para me fazer sofrer
Tens assim tanto prazer
Em torturar o meu ser

Desgraçada, porque vieste
Encerrar-te de novo no meu peito
Criar-me noites em branco
Demonstrando nenhum respeito

Desgraçada, porque me atormentas
Já não bastou a minha tenra idade
Tens de voltar agora em adulto
Para me estragar a felicidade

Desgraçada, porque aqui estás
Para mais do que fazer-me sofrer
Preocupar à minha volta
Todos o que me vêm ver

Desgraçada, vais-te embora
À força, como quiseste
Não te quero ver mais em mim
Depois do sofrimento que me deste

21/8/2004

[17:12] | 2 comentário(s)

Sex, 20 Ago 2004

Vampiros de ...

Vêem-se pelos escuros cantos da vida
Agachados de forma a não ser vistos
Mais estranhos que os normais desditos
Párias de prazeres de uma vida esquecida

Indo buscar os mais breves momentos
Raiam da toca onde se encontram
Oscilando entre o vício e o desejo
Sempre que os seus alvos despontam

E os outros vivendo destemidos
Sem lhes passar pelo coração
Que está alguém a observar
E a cada momento a repensar

No tempo que é e já se foi
Em longos e perdidos tempos
Onde tomaram uma refeição
Que lhes acabou os tormentos

[15:35] | 0 comentário(s)

Qui, 19 Ago 2004

Guerra com palavras

Desafios atravessam o ar
Voam na minha direcção
Pedem-me que seja forte
Que não lhes diga que não

São palavras duras e cruas
Que forte eu as sinto assim
São desejos multiplicados
Que querem que lhes diga sim

São medos, temores crescentes
Que eu sinto desta vez
Se a perco para sempre?
Mas vale dizer talvez?

[16:55] | 2 comentário(s)

Qua, 18 Ago 2004

Pele

Dizem-me que a pele está morta
Na sua parte mais visível
Que estamos embulhados em morte
Ou com algo perecível

Eles não percebem que essa camada
Que chamamos morta por conveniência
É apenas uma vida, que por nós passou
Segundo o tempo e a sua sapiência

São as cinzas de momentos passados
Alguns deixando profundas marcas
Outras apenas breves arranhões
E algumas colorações mais fracas

Marcas de dias que passaram
Sombras de alegrias e tristezas
Onde melancolias dançaram
Em breves danças de riquezas

E carregando connosco a morte
Dos dias em tempos passados
Aproveitamos o presente
Para o futuro encaminhados

E se soubermos olhar em frente
Sem deixar o passado fremente
Saberemos como fazer frente
Quando a saudade se faz demente

18/8/2004

[15:50] | 0 comentário(s)

Ter, 17 Ago 2004

Vitória

Ouvem-se as trombetas ao fundo
As gargalhadas dos vencedores
Os copos em vários brindes
As músicas dos trovadores

A festa faz-se com alegria
Foram anos de trabalhos e cansaço
Agora é aproveitar o resultado
Mas antes, um pouco de melaço

Os olhares de quem fez impossíveis
As conversas de quem foi além do limite
A alegria de quem chegou passo a passo
E a aura da vitória transmite

É lá que quero chegar
Num caminho de muito andar
A uma festa final
Num assunto principal

E essa imagem especial
Estou pouco a pouco a reter
Para ir trabalhando afinal
No que me apetecer

17/8/2004

[14:49] | 0 comentário(s)

Dom, 15 Ago 2004

Escada

Janela dividida em quadrados
Por onde só passa luz
Nenhuma imagem a atravessa
Nenhuma delas a seduz

Caminhos de subir e descer
Estou parado no meio
Aprecio a fresca aragem
Longe de qualquer paleio

[00:00] | 0 comentário(s)

Sex, 13 Ago 2004

Torre

Cabeça bem alto e altiva
Passando, dos outros, sons e imagens
Tudo vendo e observando
Sentindo fortemente cada aragem

De cotovelos na terra esperando
Com seu vestido e manto verde
Descansa sobre sete colinas
E até o tempo se perde

[00:00] | 0 comentário(s)

Qui, 12 Ago 2004

Alvos Invisiveis

Somos seres que vagueiam no meio da multidão
De alguma forma não passamos despercebidos
Somos e gostamos de ser notados
Mas queremos que se sintam perdidos

Quando mais dentro querem entrar
Sem nossa autorização
Quando nos querem perceber
E prever a nossa acção

Damos pistas, retorcidas,
A quem as quiser ver e ouvir
Disfarçamos quando queremos
Simplesmente a sorrir

Queremos que cheguem perto
Que nos tentem entender
Mas não queremos que lá cheguem
Que nos consigam perceber

Mas há um lado retorcido
De quem o falhanço quer ver
Não na cara dos outros
Mas no que eles vão dizer

E quando se chegam mesmo perto
E nos sentimos ameaçados
Mudamos a sua opinião
Porque não estamos preparados

Para que nos comprendam
Para que saibam o que sentimos
Que nos conheçam os actos
Que saibam o que sentimos

Vivemos, atraímos, afastamos
Somos donos de cada um de nós
Não tememos os outros
Sentimo-nos um pouco sós

12/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Chávena de café

Chávena de café levemente fora do sítio
Num pires bem feito, na mesa equilibrado
Uma colher suja ao pires encostada
Um pacote meio de açúcar ao lado deitado

És assim!

Acções e palavras que nem sempre fazem sentido
Numa mente bem cimentada, numa vida de perigo
Um conjunto de recordações, algumas mal digeridas
Um olhar doce e uma alegria algures no tempo perdidas

12/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Qua, 11 Ago 2004

Riddick

Em mundos negros supostamente civilizados,
raças superiores desejam ter todos conquistados,
mas uma alma mais negra, perdida os combate
criando esperança por toda a parte

[16:49] | 0 comentário(s)

Observadores da vida

Olhamos o que anda à nossa volta
Batemos todos os caminhos
Seguimos dos outros as pisadas
Entretemo-nos a ver os patinhos

Revezamo-nos na vigilância
Vemos detalhes e pormenores
Andamos disfarçados numa ânsia
De descobrir as conversas menores

Os trejeitos que eles não sabem que fazem
Resquícios de memórios nos seus olhos
Expressões momentâneas, descuidadas
Sentimentos que indicam os escolhos

Deduzindo teorias e pensamentos
Avançamos numa vida disfarçada
Vivendo a vida de outros por momentos
Inquirindo sobre a vida desgraçada
Damos por vida este seguir de tormentos
Achamos esta vida engraçada

11/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Desculpas

Passamos pela vida desculpando-nos
Do incómodo que podemos trazer
Mas se outro igual encontramos
Dizemos logo que não tem nada que dizer

Essa palavra tão forte e tão pesada
"Desculpa", porque te hás-de sentir com ela
Se o que fizeste é normal
Tão normal como cruzar uma viela

E deixando este recado aos outros
Continuamos as nossas desculpas habituais
Temendo incomodar os outros na vida
Onde não queremos ser apenas um a mais

E nas desculpas que fazemos há dois gritos
Ambos em conjunto, contraditórios
Um pedido de atenção algo esquisito
Que se contenta com um sorriso transitório

O outro grito é de enorme soberba
Assume que nossas acções e pensamento
Provocam nos outros reacções
Que podem resultar num tormento

E assim vamos vivendo nossas vidas
Tentando não dar muito pouco nas vistas
Temendo os sinais que vamos lendo
De que os outros nos vão deixando pistas

11/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Ter, 10 Ago 2004

Cavalgando

Monto um cavalo triste

Sinto-me como ele hoje
Inicio meu caminho
Mando iniciar o trote
Um pensamento de arminho

Lá onde os cascos batem na terra
Algures debaixo de mim
Doravante fica à espera
O sentir que me põe assim

10/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Seg, 09 Ago 2004

Artur

"Diz-nos o que serias capaz de fazer para conheceres a terra do Rei Artur"

Calcorrear caminhos sem mapa,
Perseguir injustiças praticadas,
Cantar actos heróicos,
Compôr pequenas baladas
Para no fim chegar
Ao último reino de fadas

9/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Sáb, 07 Ago 2004

Trio amoroso

Há vista de todos há segredos
Por nós humanos, nunca imaginados
Segredos de amor entre elementos
Que nos deixariam aterrados

O mais óbvio de todos eles
A que assistimos diariamente
É aquele entre fogo e água
É um amor quase demente

Todos os dias se repete
Esse inusitado ritual
Onde o sol põe seu manto dourado
Sobre a superfície especial

De um mar sem igual
E assim a água aconchega
Num abraço apaixonado
Enquanto a noite não chega

Mas a nocturna separação
Não era aceite pelos amantes
Mas uma solução
Foi encontrada pelas bacantes

Elas arranjaram aos amantes
Uma companhia especial
Alguém que reflectisse o sol
Neste amor sem igual

Foram elas chamar a lua
Para seu intermediário
Ela aceitou a tarefa
No seu ritmo diário

E assim seguiu a água
De dia, uma abraço dourado
De noite, um de prata
Com sabor de beijo roubado

Sendo o de prata mais fraco
A água aproximou-se
E, no ciclo das marés,
A lua apaixonou-se

Não podendo roubar a água ao sol
A lua amuou de forma feroz
E nada a acalmou
Nem Apolo com a sua voz

Estes ciúmes mataram
Metade do seu ser
Criaram um lado negro
Que nada permite ver

E assim ao longo dos dias
O abraço de prata sofreu
Reduzido pelos ciúmes
De quem nunca pereceu

Seguem os amantes suas vidas
Nos seus abraços possíveis
Continuam seu amor
Nos seus abraços visíveis

7/8/2004

[18:00] | 0 comentário(s)

Sex, 06 Ago 2004

Sentidos

Olho o mundo a minha volta
Sinto-o a entrar, o meu alfa
Que avança no mundo com tacto

Aureo é o futuro que se apresenta
É mais do que esperei e pedi
Chego assim à minha absolvição

Vi gentes e terras de espantar
Senti as maravilhas que o são

Tacanhas mentes deixei passar
Do meu passado fiquei eu farto

Para aligeirar uma carga dura
Para melhor arrumá-la
Fiquei por aí a cirandar

6/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Segredos à vista

São os segredos mais bem guardados
À vista
De todos
Do mundo

Mesmo debaixo de muito nariz mais proeminente
Escondido
Um dia
Secreto

Temendo os seus donos a descoberta
Às vezes
Gozando
O prato

Se alguém tropeçará na verdade
Já cedo
Já tarde
Demais

Perguntando-se quando é que alguém notará
Num segredo
Numa pista
Em quê?

Ficando para sempre uma dúvida mostrada
De quando
Se um dia
Talvez

6/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Qui, 05 Ago 2004

Garden

Hera caindo de um céu estrelado
Crianças brincando com seus instrumentos
Em tons de rosa e azul iluminados
Exorcizando seus tormentos

5/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

O meu mundo

O meu mundo é uma janela
Pequena, limitada, rectangular
Onde falo com meio mundo
Onde ao mundo consigo chegar

O meu mundo é um pensamento
Que paira no ar a crescer
E dispara no universo
Para um pouco dele reter

O meu mundo é cor e luz
Varia com o tempo e o vento
Foge do real para a memória
Sem contar com o meu intento

O meu mundo é uma parede
Lisa, colorida, pintada
Escondendo o que tem por trás
Mostrando-se quase lavada

O meu mundo é um mundo
Onde deixo poucos entrar
E menos ainda perceber
O que lá se está a passar

5/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Qua, 04 Ago 2004

Doce em mel

Sonhos passados, doces como mel
Entre caminhos desviados que o destino tece
Restos de céu que um dia resplandeceram
Antes dos tempos sobre nós pereceram

De fios de prata o futuro se tece
Onde sonhos reluzem feitos de ouro
Como algo etéreo, um sorriso afável
Indicando algo que o coração enternece

Caem à nossa volta alguns doces anjos
Andam à procura dos sonhos do futuro
Dizem que apenas tocam com seus banjos
Onde o mundo feio se enegrece

4/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

Ter, 03 Ago 2004

Jardins

Jardins nascidos em tempos imemoriais
A encantar pessoas em laços fatais
No movimento de uma vida estais
A disfarçar diferenças dos demais

Onde entorpece a maior dor
E sonhar se faz sem torpor
Só escutas o som de um tambor
Perante sentinelas de amor

E perfilhando o eterno mal
Receamos este destino final
Ansiando razão algo especial
Selando o sentimento total

3/8/2004

[00:00] | 0 comentário(s)

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