Diário de um poeta
poemas e textos sobre tudo e nada

Sáb, 31 Jul 2004

Manto de prata

Lá estava ela em cima
Um sorriso nos lábios
Irradiando uma luz
Que cega os mais sábios

Cá em baixo estava ele
Até algo sonolento
Deitado no seu leito
Seguindo, pachorrento

Mas algo o atingiu
O seu rosto indiferente
Foi um manto de prata
Que tinha algo de insolente

E reflectindo a sua luz
O rio deixou-se levar
Pela força de uma lua
Que estava cheia, de pasmar

E na noite, a passear
Os seres humanos ignoram
A relação entre os dois
E tudo o que passaram

31/7/2004

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Exemplos

Neste mar que é a nossa vida
Há pontos onde nos tentamos agarrar
São os nossos portos de abrigo
São os nossos faróis no mar

Quando nos sentimos perdidos
Quando não sabemos o que fazer
Há pessoas nesta vida
Há quem nos dê o exemplo
De como devemos proceder

E como fazem seu caminho
Sem céu ou terra temer
Deixam o mundo menos sozinho
Dão-nos uma lição de viver

E os que se abrigam nesses portos
Os que seguem estes faróis
Sentem-se como peixes num mar
De onde tiraram os anzóis

31/7/2004

Bodas de Ouro da Mª Júlia.

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Sex, 30 Jul 2004

Há alturas

Há alturas em que nos dizem que não vale a pena
Que o esforço que fazemos é inútil
Que continuar é fútil
Que, por mais que nos esforcemos, tudo é impossível

Há alturas na vida em que recusamos as evidências
Quando deixamos o sentimento ditar o que fazemos
Quando saltamos por cima da lógica
Quando a nós nos convencemos
Que tudo é possível e que o que queremos vale a pena

Mas no mundo em que estamos
Em que o extraordinário é normal
E onde os impossíveis de ontem
São a realidade actual

Que posso fazer além de avançar
De avançar contra o bom senso
De arriscar correr e cair
De amar, sofrer e pensar

Há alturas na vida
Em que não podemos olhar para trás
Que não vale a pena sofrer
Com o leite derramado
Tal é preciso para viver

Há alturas na vida
Em que é preciso arriscar
Pôr tudo, ou quase, em risco
Sonho em realidade tornar

30/7/2004

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Ter, 27 Jul 2004

São apenas palavras

São apenas palavras
Gosto de brincar com elas
Porque é que assim arrumadas
Dizem que ficam mais belas

São apenas palavras
Porque se chocam tanto
Por serem palavrões
Devo desatar num pranto

São apenas palavras
Porque assumem que as sinto
Não gostam da outra hipótese
De que simplesmente minto

São apenas palavras
Que saem da minha alma
E ao sair descansam-na
Deixam-na mais calma

São apenas palavras
Que penso e que escrevo
Porque hão-de assumir
Que têem algum relevo

São apenas palavras
Que insisto em escrever
Talvez, quem sabe, um dia
Eu as volte a reler

São apenas palavras
Escritas num jardim
Várias letras amontoadas
Que me fazem sentir assim

São apenas palavras
Que enganam quem as lê
Porque sentem algo falso
Que quem escreveu não vê

São apenas palavras
Que me dão a volta à cabeça
E me deixam confuso
À espera que algo aconteça

São apenas palavras
Que me fazem pensar
E geram outras palavras
Que me ponho a escrevinhar

São apenas palavras
E sobre elas não sei mais
São apenas algo que deixo
Que não me sejam fatais

27/7/2004

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Nos teus olhos

Perco-me
Vagueio
Procuro
Nos teus olhos

Vejo sentimentos
Dúvidas
Desconfortos
Nos teus olhos

Vejo vontades
Certezas
Força
Desafio
Nos teus olhos

Vejo-te una
E dividida

Vejo-te fraca
E invencível

Vejo-te forte
E incerta

Nos teus olhos

Perco-me
Vagueio
Procuro
Encontro-me
Nos teus olhos

27/7/2004

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Seg, 26 Jul 2004

Tenho medo

Tenho medo.
Não é pânico, nem pavor
Nem apenas leve receio
É medo, destrutor
De tudo o que anseio

Descobri algo sobre mim
Que preferia não saber
Sei lidar com desilusão
Mas muito me falta aprender

Com o sofrimento é fácil
Para a ignorância, basta tempo
Mas com a felicidade
Fico a repisar o momento

Recentemente disseram-me
O que eu mais queria ouvir
E não consegui expressar
O que estava a sentir

Tinha passado a última semana
A preparar um desilusão
A ver como dar-lhe a volta
Como lidar com a emoção

E quando não se realizou
Foi o contrário afinal
Fiquei petrificado
Como se houvesse temporal

O mundo à minha frente
É desconhecido de mim
Mas quero lá chegar
Não me fico aqui assim

Tenho medo, ignorância
Não sei que vai acontecer
Mas sei que se ficar parado
É garantido perder

Sei o que quero, o que desejo
E nada me diz ser impossível
Quero vencer o meu medo
Não quero ficar impassível

26/7/2004

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The picture is there

The picture is there
Forever in his mind
And no place else
Could it be so kind

The picture is there
Forever in her soul
And it will never be hidden
On earth, in a hole

26/7/2004

Rapariga com brincos de pérola

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Não sou eu

Hoje não estou em mim
Parece um fenómeno estranho
Um pensamento tacanho
Mas é assim que me sinto

A minha vida não é minha
Nem sequer a que tinha
Me parece conhecida

Vejo-me de fora a agir
Como alguém distante
Que desconheço

Os seus gestos, acções
Não me dizem nada
A sua voz é apenas uma toada
Que insiste em chegar aos meus ouvidos

Os meus pensamentos ele não houve
Os seus pensamentos não conheço
Os meus planos não são os dele
Os dele até os esqueço

A minha vida eu não vivo
Apenas observo

Amanhã será diferente
Sei que teremos a mesma mente
Mas por enquanto aproveito a calma
De viver fora de mim
De ser só a minha alma

26/7/2004

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Sex, 23 Jul 2004

Noite de desespero

Estava um céu limpo, um mar calmo
Na cidade mais bonita
Tinha um encontro marcado
Com alguém de quem andava fugido
E o que foi evitado
Teve o resultado temido

O encontro foi o fim
De um caminho de mentiras
De sentimentos escondidos
De mal acalmadas iras

Foi um encontro desesperado
Entre dois seres distintos
Um deles sempre abafado
Outro sem grandes instintos

Encontrei-me comigo mesmo
E não gostei do que vi
Resolvi lidar comigo
Mal pensava no fim

As mentiras acumuladas
Foram sendo bem guardadas
Explodiram-me na cara
Numa sequência de toadas

Depois das mentiras, as verdades
Que fui recusando ver
E me atingiram no queixo
De forma que me fez doer

Mas o choque veio a seguir
Quando me encontrei comigo
E de repente me vi
Sem poiso nem abrigo

O choque foi horrendo
Quando a mim mesmo me juntei
E entrei em desespero
E por horas eu chorei

Disse mal da minha vida
Do caminho que escolhi
Das decisões que tomei
Dos momentos que vivi

Revivi cada momento
De uma vida que não queria
Por cada momento penei
Em todos me iludia

Passei a noite em branco
Relembrando cada acidente
E por cada dia revivendo
O passado sob novas lentes

E com o olhar tapado
Com a mente mais turvada
Entrei num ciclo de dor
Que nunca mais parava

E num momento abri os olhos
E quis acabar com tudo
Não queria mais dor
Só sair deste mundo

E olhei pela janela
Estava aberta por sinal
Mas faltaram-me as forças
Caí de cansaço no final

E nos meses que se seguiram
Destruí a minha falsa vida
Peça a peça, momento a momento
E voltei ao ponto de partida

Demorou muito mais tempo
Do que me atrevia a prever
Mas ganhei uma vida nova
Um novo amanhecer

E uma noite de desespero
Recordo com alegria
Sabendo que sobrevivi
Para viver mais este dia

23/7/2004

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Imaginação vs realidade

É uma escolha difícil
Esta que todos fazemos
De escolher que memória
Guardamos do que vivemos

Em todos os nossos momentos
Só a custo nos apercebemos
Do que se passa à nossa volta
Do que nós compreendemos

E no momento de recordar
Estamos, na prática, a escolher
Se recordamos a realidade
Ou o que escolhemos rever

E assim construimos memórias
Desfasadas da realidade
E nelas vamos procurando
O caminho da felicidade

23/7/2004

Big Fish

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Ter, 20 Jul 2004

Monstro e a bela

Numa cidade sem forma nem história
Num dos seus cantos mais escondidos
Numa sala escura d'uma casa maldita
Ele tem os seus sonhos escondidos

É um monstro, sabe-o bem
O quão assustador pode ser
E à sua volta vê
O que usa para esconder

São máscaras de materiais
Alguns etéreos até
Uns de madeira ou vil metal
Outros de desejo ou de fé

Mas a que ele tanto olha
Não é de ouro nem marfim
Foi tecida em fios finos
Por um amor sem fim

Mas não deixa de ser máscara
Que o habituou a tal
Esconder tanto o que sente
Que se revelou mortal

Os sorrisos que escondeu
Quando via a sua amada
Foram doendo mais
Do que o golpe de qualquer espada

Os bateres do coração
Apressados por sinal
Foram sendo reprimidos
Numa eficácia fatal

Até mesmo os ciúmes
Com as esperanças e medos
Foram sendo escondidos
Nestes seus arremedos

Mas a máscara ganhou manchas
Quando além dos sentimentos
Passou a esconder verdades
Em apenas curtos momentos

E assim vai para o lixo
A máscara tão bem tecida
Que outra igual não se juntará
À sua cara nesta vida

E a bela que a inspirou
Sendo a mais bela do mundo
Poderá dizer adeus
Tornando meu desespero profundo

20/7/2004

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Liberdade

O caminho para a liberdade é duro e custoso
E tem mais armadilhas do que se pensa e sabe
E quem o decide percorrer, vai enfrentar a sua dor
E a sua mente, o seu passado, com alguma ansiedade

Existem várias fases porque é preciso atravessar
Qualquer uma delas é dura, mas impossível de ignorar
Ainda não tenho o mapa feito, ainda não sei onde é o fim
Mas posso deixar o meu rasto para quem me seguir pensar

A primeira fase é dura, é a da independência
O exercício da acção, por mais pequena que seja
O passar de ideias a actos, e fazê-lo por nós mesmos
O agir sem sequer reflectir no que o outro deseja

Implica perder a calma de quem nada pensa fazer
Abandonar o conforto de quem nada vai realizar
Enquanto congemina planos sem finalidade ou objectivo
E passar a agir sem tudo e mais alguma coisa repensar

Implica criar pouco a pouco a força de agir
E ser capaz de seguir as suas próprias ideias
Independentemente de dúvidas, medos e comentários
De quem à nossa não percebe que estamos a limpar teias

Implica saber identificar que ideias são suas
Quais as que nos são impostas, programadas
Quais as que nos condicionam e quais as que aprendemos
Ter consciência de nós próprios todas as madrugadas

A segunda fase é a interdependência
Aprender a comunicar e depender de pessoas
Para nos ajudarem a chegar onde queremos
Independentemente das coisas serem boas

Aprender a comprometer os nossos comportamentos
Irracionais ou secundários para um objectivo atingir
E com outros a acompanhar no caminho
Chegar mais longe que alguma vez sonhámos ir

Ouvir e falar, sempre comunicando
E passo a passo ir no caminho andando
Neste mundo e noutro sempre procurando
E a monotonia sempre ir quebrando

E sabendo que as regras são nossas
Vamos seguindo os nossos caminhos
Independentemente de servirem outros
Sentindo-nos bem, livres como passarinhos

E entramos na fase seguinte, tentando não adormecer
Sempre procurando algo novo para fazer, ou ver, ou viver
Afinar objectivos, alcançar novas metas, viver algo novo
Recusando a submissão imposta, o apenas sobreviver...

20/7/2004

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Dom, 18 Jul 2004

Sentimentos profundos

Sentimentos profundos
Que se pensavam guardados
E a sete chaves trancados
Nos cantos da alma mais fundos

Sentimentos terríveis
Educados para desaparecer
E nunca na vida transparecer
Os seus actos horríveis

Sentimentos aparecidos
Numa noite em que foi apanhado pela vida
E onde toda a ameaça temida
Se revelou aos aparecidos

Sentimentos revoltados
Que se elevaram na voz
E espantaram os que, sós
Se viram por um amigo abandonados

Sentimentos de culpa
De quem se deixou levar
Num tempo, quebrantar
Pela força do medo

Sentimentos que o são
Impossíveis de esconder
De deixá-los morrer
Que nos fazem perder a razão

Centos negros das nossas almas
Os segredos mais escuros
De quem, temendo os inseguros
Passos dados nas calmas,

Se relembra todo os dia
Da pessoa que esquecia
Por tê-la sido um dia
Em que a si se temia

18/7/2004

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Secrets kept afar

Who I am
Who you are
Two great secrets
Kept afar

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Sáb, 17 Jul 2004

Horizonte

Numa cadência regular oiço o mar
Deixo os meus olhos a vaguear
E, de onda em onda a avançar
Até ao horizonte vão chegar

E dou por mim a pensar na vida
E que a sua razão pode ser temida
Que o horizonte é como os objectivos
Que nesta vida são definidos

Fronteiras longíquas onde queremos chegar
Alvos difíceis que queremos alcançar
Mesmo sabendo que só por andar
Esses objectivos vamos mudar

E assim, como a areia que sinto nos pés,
Vamos vivendo a vida, revés a revés,
Em que cada grão representa um momento
E cada onda um novo alento

E olhando o horizonte
Tentando-o alcançar
Fazemos a nossa praia
Do nascer ao deitar

17/7/2004

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Qui, 15 Jul 2004

O último adeus

Deu o último suspiro
Viveu o seu último dia
Morreu.

Num caixão seu corpo foi posto
Com um lençol de seda sobreposto
Para todos os visitarem
E seu último adeus darem

Peçam-me para recordar
Peçam-me para dele falar
Peçam-me para voltar a sentir
Os momento que partilhámos

Mas não peçam que só diga bem
Que deixe a memória por metade
Que diga que viveu bem
Que só criou felicidade

Ele viveu, escolheu, errou
Não foi Deus, nem um diabo
Não esperem que eu torne em lenda
Só porque expirou à bocado

Não desrespeito seu túmulo
Se recordar todos os momentos
Os bons, os maus e os outros
As festas e os tormentos

Desrespeito-o, sim
Se num momento pós final
Me esquecer que foi humano
E a sua vida até final

Peçam-me tudo o que quiseram
Menos para esquecer
Que estamos aqui por nós
E que vamos todos morrer

E que no dia em que o fizermos
Acabou-se o humano em nós
E deve ser recordado
Para não nos sentirmos sós

15/7/2004

Morreu o Padre Pedro.

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Qua, 14 Jul 2004

Há dias

"Há dias em que não cabes na pele com que andas."

Sinto-me num destes dias.
O mundo luz com o Verão
E ando eu a pensar
Que raio faço aqui

Porque tenho a tentação
De tudo deixar para trás
Fugir depressa daqui
Como se fosse de satanás?

São dúvidas que não fazem sentido
Cansaços que não consigo explicar
O mundo parece cinzento
Mas nem me apetece chorar

Não estou triste, só cansado
E nem é fisicamente
Melancólico, soturno
Que se passa nesta mente?

Penso, repenso e tento ver
Como recarregar baterias
Poucas coisas me alegram
Mas ajudam a passar os dias

O dia está a nascer
Pouco a pouco a acordar
Novo dia, poderá ser
Um bonito acordar

Entre o importante e o urgente
Ando-me sempre a perder
Tenho de voltar ao meu caminho
Sem ele não posso viver

Não que seja o que foi
A vantagem do meu caminho
É que acaba no agora
E que o fiz (quase) sozinho

Estarei noutra encruzilhada?
Estúpido, idiota, esquecido
É só crise de meio do ano
Passou o tempo temido

É assim todos os anos
Duas vezes por sinal
E todas as vezes me esqueço
Deste momento fatal

São todos os seis meses
Que reúno para avaliação
O que fiz e o que fui
E um pouco mais então

Sinto-me idiota por esquecer
O que se repete, enfim
Ao menos já sei, assim
Que se passa dentro de mim

Está na hora de prestar contas
À única pessoa a quem devo
Explicações pela minha vida
Porque é que o resultado temo?

Será um processo duro
Só assim posso aprender
Então porque mete medo
Ao ponto de eu me esquecer?

Vão ser dias interessantes
Estes de avaliação
Mas ao menos já sei antes
O que me espera na função.

14/7/2004

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Seg, 12 Jul 2004

Escolhas

Sento-me num café,
A rever o passado
A olhar o presente
E a pensar qual é o meu estado

O passo seguinte
Está difícil de dar
Sou demasiado esperto
Para só me atirar

A um futuro incerto
Por mais certo que pareça
A um objectivo simples
Correr sem ter pressa

Demasiadas escolhas estão
Ante mim neste momento
E o tempo que vai passando
Agudiza o meu tormento

Posso tentar a vida a dois
Com alguém que talvez me queira
Mas o tempo de o fazer
Parece maior que a Terra inteira

Posso arrancar sozinho
Numa via empresarial
Mas duvido que a falta de ordem
Não me seja fatal

Posso procurar alguém
Mas confio demais
E essas confianças
No passado foram fatais

Posso tentar mudar o mundo
Corrigir um problema
Mesmo que ninguém reconheça
O valor desse tema

Mas fazer disso a minha vida
É dúvida que me apoquenta
E entre as escolhas que tenho
Nenhuma delas me tenta
Muito mais que as outras
Nem menos afinal
Seja esta minha indecisão
O meu eterno mal

Mas o tempo vai passando
Escorrendo-me entre os dedos
Porque sinto que aproveitá-lo
É como tentar mover rochedos

Sinto-me a afastar
De um desígnio definido
Há muito tempo atrás
Num tempo já perdido

Quero uma vida melhor
Quero saber o que fazer
Quero chegar ao fim do dia
E uma certeza ter

Que neste dia avancei
Para o meu destino, afinal
Foram-se vinte e quatro horas
Num dia mais que normal

Mas são horas que não voltam
Segundos desperdiçados
Enquanto não vou a lado nenhum
E olho para todos os lados

E nesta dúvida final
Vou escolhendo a minha vida
Esperando que no fim
Não a dê por perdida

Os caminhos que procuro
Mais ninguém irá definir
Pareço condenado
A pouco a pouco, os construir

Que seja, sina maldita
Se é a única que tenho
Seja a vida que aproveito
Mais um dia será feito

À imagem dos anteriores
Mas único por sinal
Até chegar ao fim da vida
Até ao destino fatal

Mas agora é mais um dia
Uma tarde de definições
Amanhã é novo dia
Quem sabe com que emoções...

12/7/2004

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Dom, 11 Jul 2004

Inimigo sem rosto

O inimigo sem rosto rodeia-nos
Nunca sei quando à minha volta
Encontrarei um pensamento velho
Uma ideia repetida,
Um raciocínio que já ouvi

Não vale a pena olhar em volta,
Paranóico
A vida ensinou-me que,
Das bocas mais inesperadas
Sairá o pensamento que me deixa espantado

E é sempre igual,
Tem qualquer coisa em comum
Uma ideia repisada
Um raciocínio viciado
Um espanto por acções
Que nada tendo de especial
Aceites não serão
Por aqueles que à minha volta
Certo pensamento guardarão

E qualquer pequena acção
Considerada menos normal
Parece um crime horrendo
Um movimento fatal

E num jantar de amigos
Ou numa simples conversa
Encontro sempre alguém
A quem tal nada impeça

De dizer que estranho é
A pequena coisa que faço
Como se fosse um tabu
E causasse embaraço

É um mecanismo estranho
Este da normalidade
Onde o mais importante assunto
É tratado como veleidade

No entanto, quando as acções
Parecem menos normais
Escândalo, espanto, discussão
"Chamem-me por favor os pais

É decerto impossível
Que tais pessoas existam
Porque hão-de ser diferentes
E não como os outros se vistam

Numa feira de vaidades
Com máscaras que escondem
O que realmente são,
Aquilo que fazer podem"

E a estranheza que lhes passa
Não assusta pela voz
Mas pelos olhos de medo
Que vejo quando estamos sós

E sem aceitar o que dizem
Ganho a força do contrário
De recusar a normalidade
E mudar o mostruário

Com todas as minhas forças
A esta força resisto
Eu só quero ser feliz
Não quero ser anti-cristo

E assim vou passando a vida
Recolhendo os meus iguais
Procurando ser feliz
Sem a outros ligar mais

Quero viver a minha vida
Sem regras que não estão escritas
Quero seguir as minhas ideias
Nem que sejam as malditas

Mas continuo com medo
De ver de onde vai saltar
O meu inimigo sem rosto
Com os seus olhos a brilhar

Seu olhar de indignação
Conheço hoje muito bem
Mas ignoro-o na mesma
Vive-se a vida que se tem

E quando chego ao fim do dia
Sinto pena dos infelizes
Que não o vêm como seu
Desde o tempo de petizes

Sinto-me sábio e idiota
Do normal sou incapaz
Mas para ser feliz
De tal tenho de ser capaz

Vive-se, pensa-se, sonha-se
Sente-se, olha-se, desafia-se
Conhece-se, vê-se, vangloria-se
Toca-se, beija-se, ama-se

Bem vindo sejas meu inimigo
Que sem rosto estás por todo o lado
Sabes onde me encontrar neste dia
Mas não serei por ti apanhado.

11/7/2004

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Qui, 08 Jul 2004

Ruy Belo

Que posso eu dizer sobre Ruy Belo?
Que foi um prazer lê-lo? Declamá-lo?
Que em sua alma entrei e senti
um dia a dia num mundo diferente.

Minto ao dizer que o li. Devorei-o.
E convertendo versos em paleio
E, passo a passo, verso a verso
Descobri um novo lado do universo

Morte, vida, praia, tempo, criança
São apenas alguns temas que balança
Entre sarcasmo, ironia e beleza
E um certo ateísmo que preza

São apenas momentos soltos de uma vida
Que, embora não pareça destemida,
Nos leva a observar o que rodeia
Aqueles que encontramos nesta teia

E de vez em quando vemos surgir
Quando nada nos podia prevenir
Um pensamento de tão estranha ironia
Que todos se voltam para quem ria

No final, mais um fã Belo ganhou,
Em tempos que perdemos uma Sophia
O seu ritmo, palavras pensamentos
Conseguem-se sentir com os ventos
E lembrar-nos uma tarde fria.

8/7/2004

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Qua, 07 Jul 2004

Mapa da mente

Um dia, andava eu, metido na minha vidinha
Até que veio até mim, com um sorriso d'alecrim
Uma senhora tão estranha, quão feia a cara tinha
Susurrando-me baixinho que tinha algo para mim

Que eu não estava interessado, tentei ripostar
Afinal que podia a velha, de valor ter p'ra me dar
Mas seguiu-me incessantemente, pedindo sempre "por favor,
Dê-me só um minutinho, meu excelso senhor"

Não sei que me deu então, se terá sido o elogio
Ou a curiosidade crescente que me fez um arrepio
Perguntei-lhe então a ela "que tem você para me dar"
Respondeu-me directamente "algo de que muito vai gostar"

"Sim, mas diga-me o que é, senão vou-me embora"
"Não siga já, meu senhor, o que eu tenho está lá fora.
É um tesouro escondido, mágico no seu ser,
Abras a portas do mundo a todo o que o tiver

Tem estradas, montes e vales, moinhos e ventos também
Mas não irá achar nele o caminho para Santarém
É um tesouro irreal, um dizem que impossível
Mas ao verem-no em acção ninguém fica impassível"

"Quero ver tal fenómeno, embora esteja a temer
Que com tal descrição, o barrete esteja a meter"
"Calar-me-ei, meu senhor, deixarei os factos falar
Posso garantir-lhe algo, o senhor vai-se admirar"

E assim segui a velha, bruxa dos tempos modernos
Em buscar do desconhecido, um graal nos tempos modernos
Levou-me ela ao certo, em busca de algo final
Que minha cabeça não cria que pudesse fazer mal

Ela abriu um embrulho de jornal e papel feito
E mostrou-me um papel, com nada escrito a direito
Disse-me para prestar atenção às linhas que passavam
Sim, nenhuma estava parado no papel, andavam

Disse-me para virar para mim, o artefacto estranho
Quando olhei para o papel, entrei num choque estranho
O que vi, não reconheci, pelo menos à primeira vista
Só pouco a pouco vi a minha mente de artista

Estava lá com tudo o resto, estradas, armadilhas, mal
E achei que na mão de outros, tal coisa seria fatal
Dei-lhe tudo o que ela quis, e mais um pouco também
Era demasiado valioso para não o tratar bem

Mas que coisa era essa, que não me deixou indiferente
Era algo estranho, óbvio! Era um mapa da mente!

7/7/2004

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Seg, 05 Jul 2004

Percentagem da vida

A vida é qualquer coisa estranha
De que desconheço o sentido
E, passo a passo, vou seguindo
Para além do meu umbigo.

Tudo isto por umas percentagens
Que me puseram a pensar
No terço da vida que durmo
E nos vinte anos a andar

A tentar perceber
Ou simplesmente conhecer
O mundo à minha volta
E quem nele se revolta

Do que sobra da minha vida
Um terço será trabalhar
Outro terço a dormitar
Será o resto vivida?

Um futuro maravilhoso
É um sonho mais que ditoso
Que me ajuda a passar
E passo a passo atravessar
Um mundo um pouco viscoso

É estranho o mundo em que ando
E, onde, às vezes cantando
Tento espantar o que falha
E tenta, com a minha tralha
Me agarrar e ir ficando

Mas prefiro não pensar
No futuro a longo prazo
No fim, morremos todos
O que a depressões dá azo

Entretanto, dia a dia,
Vou pensando no presente
Num futuro que s'alumia
Mesmo que pareça demente

Num sorriso, numa alegria,
Numa pequena mordomia
Numa conversa ligeira
No alvoroço de uma feira

Na ondulação do mar
No vento que passa no ar
Num pequeno carinho
Numa pedra do caminho

Vou buscar minha vontade
E por minha necessidade
Junto um pouco de bondade
Sinto a minha liberdade

Sabe bem viver a vida
Sem com isso me preocupar
Andar, sentir, pensar
Numa alegria não temida

5/7/2004

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Dom, 04 Jul 2004

Não se aprende nada

"Aqui não se aprende nada"
Diz ela, ignorando,
O que nos faz tanta falta
Para ir neste mundo andando

O riso, a reacção,
A simples cumplicidade
A mais bela relação
Que se chama amizade

E que cada vez que vejo
Esses momentos "idiotas"
Me sinto mais alegre
Que com umas anedotas

Mas que sabe ela afinal?
Não reconhece sua força
Nem a falta de que nos faz
Para que o mundo não nos torça

É uma daquelas pessoas
Que do mundo nada esconde
Em que mostra o que tem dentro
E sente tudo o que responde

O interior cá fora
O seu coração gigante
Fazem dela cavaleiro
Da mais nobre estirpe, andante

Sente um mundo sem defesas
Recusa máscaras e o não viver
A tudo sempre se entrega
Mesmo podendo sofrer

E os amigos que tem
Admiram-na por tal
Ter a coragem de viver
Não temendo nenhum mal

Mas também se preocupam
Com a dor que a acompanha
De quem se entrega ao mundo
E nas suas teias se apanha

"Aqui não se aprende nada"
Repete a deusa maior
Tentando-nos esconder
O seu papel de professor

E nós, pupilos desajeitados,
Tentamos, aos poucos, perceber
Como fazer como ela
Para começar a viver

4/7/2004

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João Miguel Neves
Poeta e escritor
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